Conto meu na Revista Clitoris
Diego Moraes, Adriana Brunstein, Bruno Bandido, Camila F, Marcelo Mirisola, Mário Bortolotto e Paulão da Velhas virgens http://revistaclitoris.wordpress.com/revista-clitoris-2
Poema número 7
Você não sabe rosnar
É mais fácil sentar e escrever um poema triste ou se contentar com as pedrinhas fazendo glups no fundo do Rio Negro.
Cool
Diego
O cara era só mais um bastardo na vida. Cursava letras na USP e puxava saco de James Joyce, David Foster Wallace e os cool de Porto Alegre.
Túlio
E aí?
Diego
Deu pena de olhar para os olhinhos azuis de corno.
Túlio
Ele namorou Alice?
Diego
Tempos atrás. O pai dele detonou meu livro de contos em 97 na folha de São Paulo. O velho preconceito contra marginais e surrealistas do norte.
Túlio
Tinha muita gente na sala de aula?
Diego
O professor Cláudio Willer discutia “Paranóia” do Roberto Piva com os alunos do Itaim Bibi.
Túlio
Foda.
[Sol fudido estremecendo a goela do grilo. Onde andará o negro que escreveu poemas lindos e depois morreu sozinho no mar? Literatura de verdade é fechar os olhos e imaginar satanás corrompendo os anjos do paraíso]
Diego
Não queria ter matado.
Túlio
Mas ele morreu?
Diego
Soquei o estômago até vomitar pássaros e troços azulados. A galera ficou horrorizada.
Túlio
Sério mesmo?
Diego
A garotada ficou horrorizada. Parecia filme do Hitchcock. As meninas gritando e os bichinhos batendo asas contra janela.
Túlio
Deve ter sido o ódio.
Diego
Minha mãe diz que quando fico puto o cachorro fica verde.
Túlio
Anomalia.
Diego
É não. Só estilo mesmo.
Túlio
E o Willer?
Diego
Não se manifestou. Uma semana depois teve avecê e ficou mudo.
Túlio
Baita história. Parece mentira.
Diego
Não gosto de lembrar. Paguei o preço no hospício e engordei na cadeia.
Túlio
Ainda tenho exemplar do teu livro de contos.
Diego
Quase ninguém leu.
[Homem em busca de paz que chora quieto na beira do cais. O segredo do universo brincando com os lobos perto da montanha. Garoto bêbado andando com poemas brilhantes na carteira. Respiração do bebê. Agora toca Bill Callahan até o sol nascer]
Poema número 6
A princesa drogada do bar castelo esperando um Mário que lhe banque pó e uísque
Hipopótamos e violoncelos
Antigo provérbio chinês que mostra a saída do seriado Lost numa esquina do Amazonas.
Poema número 5
Equitação para o sentimento
Nuvens em movimento
Ela deitada no meu peito lendo meus poemas prediletos
Poema número 4
Ligo o Arno
As folhas viram garças desembestadas.
Correm pelo chão gélido.
Transam com as paredes e não dão poesias.
Poema número 3
A respiração do palhaço num teatro em chamas
Passat pregado na encruzilhada da tarde de sábado
O sorriso do garotinho refletindo no espelho do fliperama
Poema número 2
Tipo de cara que escora o fuzil no peito e fecha os olhos
A mina que ri de coisas desconexas em Águas de Lindóia.
O caminhoneiro que toma rebite e morre de overdose ouvindo Fernando Mendes.
Poema número 1
Silêncio dos figos embaixo da chuva
Pensamento verde dentro do poema
A rua como deserto contando estrelas
Sorriso preso no hospício da criancinha sem botas
Ela disse que o filho foi assassinado em juiz de fora. Que as flores estavam mortas no aquário e um mendigo estava cantando ópera na piscina.
Samurais
Gregório
Você não tem noção de como ela é linda.
Túlio
Quem?
Gregório
A vida.
Túlio
Jura que come alguém com essas tiras?
Gregório
Tentei ser rápido no gatilho.
Túlio
Foi patético, brother.
[Um pássaro faz menção de pousar na cabeça de Gregório, mas vai baleando e cai morto no descampado]
Gregório
Achou algo?
Túlio
Até agora nada.
[A brisa peituda de janeiro gelando arvores sem frutos. Os dois sentadinhos no banquinho da Praça Walter Campos de Carvalho separando aspas do jornal]
Gregório
Triste mesmo são aqueles patos que fingem disfarçar a solidão nadando com os jacarés.
Túlio
Tudo se torna domesticável na depressão. O sujeito até acostuma-se a viver num chiqueiro ou lixão.
[Deus vai se afastando por trás do sol. Agora as imagens se dão por trás dos ombros pegando os bichinhos flutuando na lagoa suja]
Gregório
A gente também é assim.
Túlio
Como?
Gregório
Animais domesticados pela indiferença.
Túlio
Estou longe disso.
Gregório
Por quê?
Túlio
Sou humanista.
[O pipoqueiro abre um sorriso tão amarelo de ironia que o último peixinho da poça morre engasgado e o céu vai ficando preto da cor do abismo]
Gregório
Você é só mais um incrédulo caridoso. Uma espécie de padre que estupra criancinhas e depois vai rezar missas na áfrica para aliviar as penas da consciência. Faz pelo menos cinco anos que te trago aqui para contemplar a vida e você debocha do brilho que antecede a poesia.
Túlio
Só pode estar brincando. Só venho nesta praça porque acho que é uma terapia para tua crise literária.
Gregório
A vida existe e não é uma metáfora, amigo.
Túlio
Sério?
Gregório
Ela é um elefante guardando memórias dolorosas.
Túlio
Estou começando a ficar preocupado.
[Olhos enchem de rios vermelhos. Gregório puxa uma cartinha do bolso com desenho de uma mulher gorda abraçando duas loirinhas lindas]
Gregório
Há cinco anos disse para a vida que iria para cidade grande trabalhar num carrinho de cachorro quente e escrever contos.
Túlio
E aí?
Gregório
As coisas não deram certo.
Túlio
O que ela diz na carta?
Gregório
Que se encontraria comigo nesta praça numa tarde de sábado.
Túlio
Sinto muito.
[Lágrimas escorregam frouxamente do rosto dele até fechar os olhos de mágoas. Túlio o abraça e também repousa em silêncio como samurai em sentimento de pêsames. Um senhor assobiando vêm dirigindo um trator e vai acabando com as cores, sonhos e os pombos do chafariz].
Cinza
“Emoção sem opção
Viajar no avião
Da manteiga aviação”
- Angélica Freitas
Ana
O urso é o único animal que escreve contos e toma conhaque na neve.
Diego
Foi lindo. Abandonei tudo que um dia chamei de literatura e vou trabalhar no garimpo.
Ana
Não sabe fazer outra coisa. Só tem contenda, ganância e ouro lá.
Diego
Preciso fazer algo que brilhe, porque as palavras só escurecem a minha vida.
[Pássaros brincando com pipas no azulão. Crianças correndo com cães nos parques alegres e anjos guerreando para que o homem não desista da poesia]
Ana
Fica comigo. As coisas vão melhorar.
Diego
Faz dez anos que falas isso.
Ana
O quê?
Diego
Que as coisas vão melhorar e só pioram.
Ana
Estou traduzindo coisas árabes.
Diego
Até um infeliz no oriente médio é mais feliz que a gente.
Ana
A felicidade é tê-lo ao meu lado.
Diego
Tu és louca, Ana. Não tenho nada para te oferecer. Faz uma semana que a velha portuguesa bate na nossa porta cobrando o aluguel. Achas isso bonito?
Ana
Não ligo.
[Sorriso estendido na paisagem do tédio. Bêbado dando tchau para um barco a deriva que irá naufragar no encontro do Rio Negro e Solimões]
Diego
É vida, não é? Esta grande fábrica de dor e desapontamentos.
Ana
Bobagem.
Diego
Sempre leva as coisas na brincadeira quando falo sério.
Ana
Só você importa, amor.
Diego
Foda-se.
Ana
Não fica puto.
[Arco-íris lá fora. Um cara subindo o monte Everest e outro falando da ternura engraçada dos poemas da Angélica Freitas para uma garota que não dá a mínima]
Diego
Paga a conta?
Ana
Pago.
[Ele levanta-se como Golias derrotado]
Diego
Vou pegar um ar nas ruas.
Ana
Ficou magoado comigo?
Diego
Não. Tudo permanece intacto, mas minha alma deseja beber conhaque em outros bares.
[Agora tudo é cinza e silêncio no mundão]
Dostoiévski
Eu vi Dostoiévski embaixo do viaduto da Avenida Djalma batista. O mendigo mais misantropo do mundo. Tão avesso a humanidade que quando alguém se aproxima ele começa a falar russo.
Natal
Uma gaúcha peituda para acender cigarros e corrigir meus erros ortográficos: é o que desejo neste natal.
O rei do recife
Ao amigo Tadeu S.
Camargo
Você não sabe a respeito de garotas, pastor. A tua loucura é o choro pelos versículos da bíblia. O amor é uma retroescavadeira acabando com o coração.
Pastor Alemão
Já fui dado a cadelas, irmão.
[Latidos secos estalando o vento]
Camargo
Está me seguindo faz tempo?
Pastor Alemão
Desde o dia que sentaste num banquinho da praça do centro de recife e abriste o livro de eclesiastes.
Camargo
Em que parte?
Pastor Alemão
Capítulo nove, verso quatro.
Camargo
“Porque, enquanto um homem permanece entre os vivos, há esperança; mais vale um cão vivo que um leão morto”.
Pastor Alemão
Sacou?
[Camargo descalçou os sapatos, desabotoou a camisa e foi caminhando para a beira da praia onde as ondas quebram num azul delirante]
Camargo
Ela me deixou para um vazio medonho. Agora respiro me afogando tipo um submarino da segunda guerra.
Pastor Alemão
Foda.
[O cão arranhava as patas na areia desenhando sorrisos e corações. A sensação de naufrágio dentro do corpo. Camargo fazendo força para não chorar]
Camargo
E agora? Os meus poemas dedicados serviram apenas para o amarelamento?
Pastor Alemão
Deve ter ficado roxo.
Camargo
O quê?
Pastor alemão
Os poemas.
Camargo
Não tem mais jeito. Dane-se.
[Camargo entra no monstro azulão e se deixa afogar como num dia triste. O cão desesperado corre destrambelhadamente até criar asas e virar anjo]
Eu amo Pelotas
Diego
Só consigo pensar em dar o fora daqui e ir para Pelotas.
Martinelli
Apenas um lugar frio.
Diego
Acho que estou enlouquecendo.
Martinelli
É?
Diego
Dia desses fui ao parque aquático e entrei numas paranóias que a foca pularia do tanque e roubaria minha cerveja.
Martinelli
Cuida-te.
Diego
Ando apaixonado por uma poetisa.
Martinelli
É bonita?
Diego
Linda. É negra, ruiva e lembra o John Lennon.
Martinelli
Tá de sacanagem.
Diego
Nunca falei tão sério.
Martinelli
E por que não escreve carta de amor e pega um avião?
Diego
Medo da decepção. Aí deixo que fique brincando na roda-gigante da minha imaginação.
Martinelli
Covardia.
Diego
Todo poeta é tímido como uma loirinha virgem.
[Martinelli faz menção de devorar a pêra com sífilis, mas fica só na menção de por a mão na fruteira. O corpo suspenso como um suicida no parapeito do prédio em chamas].
Martinelli
Eu cairia fora. Vai que vira mais um velhote enterrando a ternura das horas em Manaus?
Diego
Os poemas dela são meigos e ternos como nuvens sorrindo.
[O frio tentando entrar na padaria do bairro fragata. A moça triste que não andou de charrete na infância. As canções maravilhosas do Vitor Ramil num bar de mudos e surdos]
Martinelli
Já ouviu o eco que faz na curva do destino?
Diego
Não.
Martinelli
Vais ouvir quando sair daqui.
Diego
Vou arrumar minha mochila.
Martinelli
Fica na paz, brother.
[Sombras, passarinhos e i love satolep]
Reconciliação
Nara
Você tem um jeito especial de me fazer sofrer. Primeiro magoa e depois escreve um troço lindo pedindo perdão.
Urso
Não sei para onde ir.
Nara
Navio sem bússola. Soldado sem rifle e porca sem asas.
Urso
Sou assim?
Nara
Tu és um pródigo de meia-maratona. Corre pra caralho e aí fica triste e volta querendo meus abraços.
[Urso abre sorriso espanando borboletas na Amazônia. Ela sopra os machucados da testa dele e beija sujando de sangue o vestidinho branco de seda]
Diego
Saca quando alguém acorda de ressaca e a única fonte de energia é os escritos espalhados na mesa e a solução parece morrer escrevendo ou pular de cabeça do sétimo andar?
Nara
Lembrou de mim?
Urso
Como nunca tinha lembrado antes.
Nara
Bom.
Urso
Eu podia ser advogado, jornalista ou jogador de poker, mas preferi escrever contos e encher o saco da caixa de correios da editora Record.
Nara
E aí?
Urso
O cara lá nem leu.
Nara
Por quê?
Urso
Disse que estava cheio de erros ortográficos.
[O chiado mais lindo do mundo derrubando os frutos do quintal amarelo. A sensação que Deus existe e perdoa os santos e desertores]
Nara
Tira essa roupa, amor. Vamos tomar um banho.
Urso
Morrendo de fome.
Nara
Guardei Tambaqui assado no forno.
Urso
Eu te amo.
[Corpos nus em tom prata caminham abraçados em direção ao chuveiro. Mar, sangue e choro do rancor escorrendo pelo ralo. A pomba da reconciliação gralhando no telhado de zinco].
Paquetá
Conto meu na revista Paquetá. Quem tiver a fim de ler é só deixar e-mail que mando PDF via e-mail.
Varginha
A Marcos vinicius almeida
Urso
A poesia é o gênero mais avacalhado da literatura. A pessoa junta três palavras contendo sonho, abraço, estrelas e pensa que é poeta.
Platão
E a mina lá?
Urso
Perdi.
Platão
Foda.
Urso
Fui covarde. Bufão. Um moleque que vê o tesouro naufragando no mar e diz que não sabe nadar.
Platão
Não teve culpa.
[Consolou numa áurea amarelo-maconha]
Urso
Chegou a roubar um violão só pra me presentear.
Platão
Prova de amor.
Urso
O quê?
Platão
Roubar viola pra dar de aniversário.
Urso
Agora ela está isolada sem direito a banho de sol num presídio de segurança máxima.
Platão
Calma, bicho. Quer tomar alguma coisa?
Urso
Conhaque, solidão e dane-se.
[Urso enxugando suor do desespero. Sombra de Platão botando uma dose de Dreher. A casa escura feita alma dos mortos]
Platão
Não tem como tirar a garota desse inferno?
Urso
Saca o meu maior orgulho?
Platão
Não.
Urso
Ter publicado um livro de contos que ninguém leu. Sei que não vou ganhar na loteria e pagar advogados. Vou invadir na marra e arrancar meu amor de trás das grades.
Platão
É puta artista, velho. Um dos maiores contistas de todos os tempos.
Urso
A literatura não me deu porra nenhuma. Só atrai loucura, inveja e dor de cabeça.
[Chiado dos passos de Platão. Urso olhando para as aranhas correndo no teto]
Platão
Tenho um lance pra você.
Urso
É?
Platão
Era do meu avô Sócrates.
[Desfaz embrulho e vislumbra revolver 38]
Urso
Obrigado. Vou tentar não matar ninguém.
[Levantam-se como Golias sabendo do pior. Platão abre as janelas do abismo iluminando a casa]
Platão
Cuida-te, amigão.
[Desce a ladeira engatilhando. São 9 da manhã, mas vai escurecendo. Urso lembra-se dos olhos castanhos da garota tocando uma canção com final trágico. Antes de entrar no mercadinho e cometer o assalto é abduzido por ETs].
Ela não curte Lie to Me
Mauro
Cê curte “Lie to me”?
Bárbara
Não sei do que você está falando.
(Responde sem espanto. Parece que já o esperava há séculos).
Mauro
É uma série de tevê.
Bárbara
Não tenho tempo pressas coisas.
Mauro
Não minta pra mim.
Bárbara
Não enche.
Mauro
Cê ainda me ama?
Bárbara
Você é louco?
Mauro
Seus olhos mudaram de cor quando perguntei…
(Ela passa a mão no pescoço esboçando um sorriso curto meio que escondendo uns sisos arrancados na flor da liberdade)
Bárbara
Deixa-me em paz.
(Uma lágrima oculta escorre do lado esquerdo)
Mauro
Porque fugiste?
Bárbara
Achei que havíamos tapado os buracos que as lembranças fazem no coração.
Mauro
O meu virou um deserto cheio de pedras.
(Formigueiro no metrô)
Bárbara
Você vivia drogado, chegava em casa me batendo. Não dava força no balé e seu nariz só sangrava quando a gente transava.
Mauro
Não foi tão ruim. Eu deitava do seu lado e lia uns contos.
Bárbara
A vida não é apenas um monte de palavras bonitas, Mauro. A gente passava fome. Vivíamos como gatos de rua dormindo no telhado dos outros. Humilhações como sol e chuva.
Mauro
Porque cê disse que ia à farmácia e sumiu por três anos?
Bárbara
Deixa-me trabalhar, cara. Não te devo satisfações.
(Pratos espatifados no ar. Cavalo pulando obstáculos. Gente desmaiando na maratona. Ela põe capacete de leoa e vai distribuindo folhetos de compra-se ouro).
Mauro
Eu te amo.
Bárbara
Eu te odeio.
(Encena uns passos patéticos jurando que é balé).
Mauro
Sempre quis ter um filho contigo.
Bárbara
Só quero paz, Mauro.
(Garotinho corre na direção da leoa e tropeça espalhando frutas apodrecidas. Mãos distribuindo folhetos de Jesus te ama. Pombos debandando na praça da Sé)
Estrela
Só há uma solução: Escrever até seu braço virar fantasma ou pular feito um leão.
São Paulo é um freezer do tamanho de saturno
Dá vontade de enfiar o dedo na goela toda vez que vocês citam clarice lispector”. – Camila Fraga
Diego
Na oitava carreira de cocaína o telefone vai tocar e ela vai respirar fundo feito uma baleia em busca do mar.
Paulo César
Foda.
Diego
Olhar de ternura como se fosse chuva banhando a flor.
Paulo César
Nunca mais deu notícias?
Diego
Da ultima vez que disse “amor” o avião atravessou congonhas e explodiu no meio da Avenida Washington Luis.
Paulo César
Coisa de louco.
[Mudez de um chafariz de domingo. Poemas esquecidos no vão do metrô. Anjinhos de prata. A coreografia dos pombos suicidas da praça sé]
Diego
Tentei de tudo. Dediquei até um livro de contos e nada.
Paulo César
Quando elas cansam de chorar já era. Acaba mesmo. É algo parecido com os culhões de Deus.
Diego
O quê?
Paulo César
Deus te dá uma, duas, três chances, aí chega o dia que tu faz uma merda fudida que é como chutar as bolas dele.
Diego
Até ele fica puto da vida, não?
Paulo César
Ele arranca tua vida com um sopro, bicho.
Diego
O culhão da mulher é o coração.
Paulo César
Pode Crer.
[Adoniran cantando baixinho num barzinho do Brás. Frio do caralho. Oito mendigos se abraçando embaixo da marquise. São Paulo é um freezer do tamanho de saturno]
Diego
Vou deixar quieto e continuar escrevendo.
Paulo César
É a melhor coisa que tu faz.
Diego
Vou à Rua Augusta comer uma puta simples.
Paulo César
Boa sorte. ultimamente só tem pintado porcaria.
[Paisagem com mongoloides].
Saltos ornamentais no paraíso
Diego
Deus é um sujeito tímido e toma conhaque na parte mais escura do bar.
Paula
Não te devo nada. O que tínhamos pra conversar virou aquele roxo que a madrugada perdoa.
Diego
A gente podia seguir como amigos e olhar os pássaros enfeitando o horizonte.
Paula
Você magoou a ponto de fazer um estrago na camada de ozônio.
Diego
Foi uma fase difícil.
Paula
Tinha uns rabiscos lá em casa que viraram traças.
Diego
Parei de escrever.
[Sonhos interrompidos pelo destino. Bill Callahan cantando Too Many Birds no Jukebox. O sétimo índio bonachão pensando nas filhas mortas na fronteira da Bolívia]
Paula
Louco.
Diego
Lembra do dia em que pulei do barco em movimento e continuei a nadar feito boto no meio do Rio Negro?
[Ela sorri como anjo]
Paula
Você apanhou feio do comandante e depois caímos na risada. Sua cara ensangüentada e a gente se beijando.
Diego
Foi um dia lindo mesmo.
[Silêncio mágico do perdão. Principados e potestades em festa. Jesus cristo jogando cartas com Abraão no deserto].
Paula
Promete que não vai me fazer sofrer?
Diego
Assim como a chuva vem pra banhar o sol.
Paula
Eu te amo.
[Negros tocando trompete dentro do aquário da loja da esquina].
Diego
Quero confessar algo.
Paula
É?
Diego
Não parei de escrever. Escrevi um troço pro nosso amor.
[Diego abre a carteira e puxa um conto enrolado no guardanapo de papel. Ela o abraça como se o mundo não fosse triste].
Psicose
A gente escreve, escreve pra caralho e chega num ponto que não temos mais pra onde correr. A sensação é de que já atingimos o limite de ternura e tudo que tentarmos só vai encher o saco da inutilidade.
Profecia
Se você amanhecer bebendo Red Label e mergulhar bem fundo no Rio Amazonas, é possível ver a Marilyn Monroe só de calcinha.
Embaçado
Diego
Liguei pra gente ouvir Sérgio Sampaio na praia da macumba, mas sua secretária eletrônica disse uns lances em francês e resolvi não deixar recado.
[Cachorrinho latindo por causa da bike vermelha do entregador de jornais. A senhora sentada do outro lado da praça olhando o vazio como se não fosse morrer semana que vem. Pássaros azulados mergulhando em pacientes com câncer]
Luana
Ela não sabe mexer.
Diego
O quê?
Luana
Minha irmã caçula.
[Lua dispersa dos caracóis de estrelas. Carros buzinando como se o dissessem pra levantar e começar andar longe do circo de remorsos]
Diego
Quem?
Luana
Ela não sabe mexer na secretária eletrônica. O manual está em inglês.
Diego
Dane-se.
[Ela poderia rir de ironia ou só ficar no silêncio de hipopótamos contemplando a raiva, mas resolveu cruzar as pernas e amarrar os cadarços]
Luana
Você deixou de ser o objeto mais importante da casa.
[Ela bota a mão no coração soluçando, deixando lembranças transviadas que o amor desuniu no auge da tempestade]
Diego
Não estou entendo nada.
Luana
E quem deveria entender?
Diego
Nunca estive na tua casa.
Luana
Fez tanta maldade que a poesia fugiu feito um animal escorraçado pelo vento.
Diego
Vim aqui pra fazer as pazes.
Luana
Acabou.
Diego
Nunca te traí.
Luana
O vi abraçado com a garota do Milk-Shake no Shopping Center.
[Não havia mais o que fazer ali. Era só entrar no carro e chorar até embaçar os vidros naquela manhã de 13 de novembro]
Califórnia
Harvey Keitel
Só quero ir pra casa ouvir B.B. King olhando os pássaros embocando na varanda.
Steve Buscemi
É uma dádiva
Harvey Keitel
A melhor sensação do mundo é escrever um romance cheio de bêbados sonhadores e ficar com aquele gostinho de não dever nada a ninguém.
[A grandiosidade do deserto de Mojave. Harvey Despe a roupa de palhaço, olha fundo nos olhos de Steve e começa a chorar como cordeirinho perdido da manada]
Steve Buscemi
Por que tá chorando, cara?
Harvey Keitel
Nunca escrevi merda alguma. Só acho bonito falar de literatura num lugar desses.
Steve Buscemi
Dá certa, paz. É lírico mesmo. Também gosto de interpretar coisas sem sentido. Anteontem vi uma garota linda tocando trompete e sentei ao lado e comecei a falar como um piloto de avião prestes a explodir.
Harvey Keitel
E aí?
Steve Buscemi
Ela cansou de tocar. Pôs um Marbolro na minha boca, sorriu e saiu caminhando com o sol iluminando os ombros.
Harvey Keitel
Boa garota.
Steve Buscemi
O tipo de gente que perde a conta da palavra solidão num caderninho rosado ou dorme com vontade de nunca mais acordar.
Harvey Keitel
Temos algo em comum.
Steve Buscemi
É?
[Indaga idiotamente saltitando os olhos azuis]
Harvey Keitel
Somos viciados em garotas tristes.
[A boçalidade da Mamba-negra deslizando na areia].
Steve Buscemi
Que horas esse cara vai chegar?
Harvey Keitel
Ele não gira bem.
Steve Buscemi
Por que diabos o cara quer discutir um filme no meio do deserto?
Harvey Keitel
Tô ficando velho pra essas coisas.
[Azul freia bruscamente. Abel Ferrara dá pegas no crack e desce loucamente do Mustang]
Abel ferrara
O que tá rolando?
Steve Buscemi
Nada. Só estávamos expondo nossos sentimentos.
[O cineasta pega algo no porta-luvas e começa a gargalhar como um asno]
Abel Ferrara
Não trabalho com sentimentaloides!
[Sol de satanás. Sangue jorrando em ternos brancos. vendaval com ecos sinistros].
Dromedários
Diego
Foi-se o tempo que Alice fazia falta. Agora tenho piano, bicicleta e uma velha máquina de escrever.
Murilo
Mas vivia dizendo que tinha dívida de gratidão eterna.
Diego
Ela não é uma garota qualquer. Leu poemas de Um bom lugar para morrer quando estive internado.
Murilo
Uma maníaca depressiva, né?
Diego
Não fala mal dela.
Murilo
A enfermeira podia ter virado as páginas.
Diego
Foi diferente.
[Voz ruiva gargalhando numa espécie de túnel negro. Os dois como arvores petrificadas. Dromedários azulados no meio das nuvens].
Murilo
Agora é sua vez de passar a jaqueta.
Diego
Eu disse que eram quinze minutos pra cada.
Murilo
Já se passaram vinte.
Diego
Ainda estamos em sete.
Murilo
Tem escrito alguma coisa?
[Lábios arroxeando feitas borboletas na taberna de Dante Alighieri]
Diego
Ontem escrevi um conto tão barra pesada que meu cachorro correu pra ver.
Murilo
Foda.
Diego
A vida é ingrata, brother. Inventei gênero literário e agora me falta moedas pra comprar conhaque.
Murilo
Não tô sentindo as pernas diegão.
Diego
Tá bom, agora é sua vez de esquentar o peito.
[Diego veste o amigo como Jesus abençoando leproso. Nada se vê além do branco infinito-patético e a praça onde estão sentados feitos personagens desenhados por crianças autistas]
Murilo
Alice nunca foi louca. Sempre amou.
Diego
Porque tá falando isso agora?
Murilo
Sempre tive inveja de você.
[Socos no estômago até escorrer sangue do nariz. Diego também cai congelando de cansaço. Alice surge rebolando de vestidinho dourado. Cores brotam em Satolep].
Fogos de artifício
Diego
Preciso dar o fora daqui.
Murilo
Por quê?
Diego
A cidade tá empestada de veadinhos recitando Caio Fernando Abreu.
(Silêncio interrompido por trovões. Bala perdida na cabeça do açougueiro que vendia cocaína).
Murilo
A filha desse cara é linda.
Diego
Do açougueiro?
Murilo
A garota desapareceu do bairro.
(Diego acende um derby. Escora-se no muro pichado onde se lê:”O velho Charles Bukowiski nunca esteve aqui”).
Diego
Se contar você não acredita.
Murilo
O quê?
Diego
Ainda tocava “Me chama” no rádio quando ela capotou morta em meus braços.
Murilo
Foda.
Diego
Os olhos castanhos mais lindos que já vi na vida.
Murilo
Nunca te vi com ela.
Diego
Não dava bandeira. Eu comprava pó com o pai, brother. Ficaria feio na foto comprar droga do cara e ainda comer a filha, né?
Murilo
Não imaginava um lance desses.
Diego
A gente costumava fazer picknick de frente pro Rio Negro. Ela não falava nada. Só esboçava uns sorrisos mágicos como se não houvesse estrelas e depois me abraçava no meio dos chiados do rádio.
(Sensação de remorso dentro da cachoeira da alma).
Murilo
Coisa linda de se ouvir num sábado.
Diego
Não sei o que vai ser de mim. Parei até de comer carne pra não lembrar.
Murilo
Ela morreu do nada mesmo?
Diego
Pensava que ela era muda aí pediu pra mim declamar alguma coisa. Fechei os olhos e comecei a falar da Beleza de um homem que só quer escrever seus continhos pra depois sorrir com uma mulher de Deus.
Murilo
Doidera.
Diego
Aí meu peito foi esquentando pra caralho a ponto de queimar. Encerrei o poema na palavra “Amor” e estouraram fogos de artifício no meio da gente. Uma loucura. Parecia ano novo.
(Azulão. Chuva varrendo os miolos do gordo).
Murilo
Hoje é um dos dias mais estranhos da minha vida.
Diego
Faz dois dias que não pego no sono.
Murilo
Então vai pra casa descansar.
Diego
Beleza. Vou fazer isso mesmo.
Murilo
Apaga e quando acordares vê se escreve o melhor conto do ano.
(Setembro com gosto de hospício. Murilo dobra a esquina e Diego vai pro bar cheio de santos e pássaros leprosos. Lembra da garota de olhos castanhos entre goles de conhaque).
O escritor mais barra pesada do Amazonas
Paulo César
As mulheres acham que podem mijar no coração da gente e sair sorrindo como se fossem passarinhos.
Diego
A grande mágoa da minha juventude foi não ter ficado com a garota da torre do aeroporto da Bahia.
(Chiado das ondas).
Paulo César
O que têm escrito?
Diego
Quase nada. O que tinha pra escrever ficou guardado na gaveta das alegrias.
(Bota a mão no peito pensando ser uma caixinha de música onde se guarda os segredos mais bonitos).
Paulo César
Literatura…
Diego
Não tem volta, cara. Você pode ser metralhado na saída de um bar ou explodir num avião, mas sua literatura vai estar lá dentro da alma misturada com o azul do mar.
(Temporal. Asa delta caindo nas pedras).
Paulo César
Cê é o escritor mais barra pesada do amazonas.
Diego
Sou nada. Às vezes bate solidão e entro numas de sentar na cadeira de balanço e chorar fumando derby olhando pras nuvens.
Paulo César
Conheceste minha ex-mulher?
Diego
Não.
(Paulo cutuca os bolsos e puxa uma fotografia antiga de um casal se amando na argentina).
Paulo César
Tá vendo esse cara dançando tango?
Diego
És tu?
Paulo César
Tinha bigode nessa época.
Diego
O que aconteceu?
Paulo César
Caiu da roda gigante. Ainda pude vê-la dando tchauzinho enquanto estava escorado na barraca de maças de amor.
Diego
Foda.
Paulo César
É por isso que gosto de vir aqui na praia falar de mulheres e literatura.
Diego
Bebe mais um gole?
(Riram até o tsuname lamber os sonhos e arrebentar tudo).
Soluço de pedra
Diego
Ela acabou tudo e me sinto um besouro vermelho despencando do vigésimo sétimo andar.
Lucas
Agora vai escrever poesia até soluço virar pedra?
Diego
Quem dera.
(A garrafa de Dreher brilhando como se fosse um tesouro perdido).
Lucas
Vai embora?
Diego
Pelotas é apenas uma cidade fria, Brother. Agora só quero voltar pra casa e escutar Amado Batista.
Lucas
Foda.
Diego
Cê é daqui?
Lucas
Não.
Diego
É da onde?
Lucas
De lugar Nenhum.
(Silêncio de poço).
Diego
Gostava de ficar Bêbado olhando os olhos castanhos da Maira até o eco naufragar na palavra “Amor”.
Lucas
É engraçado como as coisas lindas vão ficando estranhas até virar tragédia roxa, não?
Diego
Meu nariz tá sangrando?
Lucas
Um pouco.
Diego
Deve ser do abandono. Faz quase um ano que não cheiro pó.
Lucas
Ainda bem.
Diego
Pra onde vai levar o parquinho de diversões?
Lucas
Cansei da tristeza desses animais mudos.
(Cavalos e pôneis de gesso virando adubo no asfalto)
Diego
Parece boa escolha.
Lucas
Põe a placa de “Seja bem vindo a Pelotas” na carroceria e vamos dar o fora.
(O tempo fecha. tudo vira Dreher e gargalhada. Lucas liga a caminhonete tossindo fumaça preta. Crianças recolhem suas bicicletas de prata como filhotinhos de tartarugas cavando buracos na beira-mar. A cidade agora vai pegando fogo até explodir nas costas deles).
Nevada
Tenho medo dos pássaros que abocanham a minha solidão e depois caem mortos.
Mulheres
À kasmin Carnevali
Maira
Meu marido precisa ficar em paz, saca? Quando não escreve, embaça aeroportos a ponto de ficar impossível pousar em Congonhas ou Guarulhos.
Gisele
Foda. Viver escrevendo poemas e não ganhar um tostão furado, não é coisa de Deus, Não. Tá mais pra alma a serviço do capeta.
Maira
Têm gente que nasce com a alma assim…
Gisele
Como?
Maira
Infeliz da vida.
Gisele
O meu toca numa rádio/AM.
Maira
Legal.
Gisele
Nada. Às vezes atravesso a cidade de bicicleta. Ponho-o na garupa e venho ziquezagueando. A garganta roxa e o nariz dele sangrando feito riacho sem dono.
Maira
Deve ser uma barra agüentar essas coisas.
Gisele
Não tem nada a ver com drogas. O vício dele é ficar sem fôlego. Diz que vê peixinhos saindo e entrando do saxofone.
Maira
Que horas são?
Gisele
Seis em ponto.
[Céu de Manaus. O arrebatamento da cúpula da igreja de São Sebastião. Barquinho sem ninguém dentro atravessando o Rio Negro].
Maira
Eles estão enlouquecendo.
Gisele
Sempre foram loucos.
Maira
Há certas coisas que não retornam.
Gisele
O quê, por exemplo?
Maira
O sorriso dele declamando poemas.
[Silêncio de bonde parado].
Gisele
Tem alguma peça no teatro?
Maira
Que se dane. À noite é nossa.
[Garotas se embebedando. Fotografias da artista plástica mineira reluzentes como santidades no Bar do Armando. Kasmin abraça seu metafísico cabeludo pra subir a ladeira cantando. Agora Pássaros num vendaval dentro das gravuras de Goya].
É proibido tocar trompete
Diego
Ela disse que o irmão foi metralhado.
João Batista
E aí?
Diego
Ficou olhando com cara de que é proibido tocar trompete no chororó.
João Batista
Viu a figura no caixão?
Diego
Mó onda. A amante de um lado e a esposa grávida do outro tapando patacas de sangue escapando pelos riachinhos do corpo.
João Batista
Dever traficante é foda.
Diego
O peito dele parecia uns biscoitinhos vermelhos de Pac-Man. Na entrada só bacacinho de foca e nas costas rombo de elefante.
João Batista
Metralhadora…
Diego
Vou sair fora.
João Batista
Pra onde, velho?
Diego
Pegar a estrada aí.
João Batista
Fica na paz.
Diego
Tem um presente no porta luvas do carro.
João Batista
É?
Diego
Semana que vem não é teu aniversário?
João Batista
Obrigadão. Essa foi a melhor coisa que já ganhei na vida.
[Mãos sujas no On the Road e talagadas no Ballantines].
Diego
Tô indo.
João Batista
Vai devagar…
[Rajadas de Ar- 15 cruzando o céu até acertar sem querer a cabeça de João Batista. Diego acelera assobiando Noel Rosa de mansinho até escurecer completamente].
Santidade
Céu cheio de pipas e urubús.
Diego
Hoje faço seis meses sem cheirar pó.
Maira
Legal.
Diego
Tropeço em poemas que jamais serão escritos. Parecem barcos naufragando na beira do cais.
Maira
Os que sobreviveram são belíssimos. Tão acachapantes como bolas de demolição arrebentando o asfalto.
Diego
Cê curte tanto assim?
Maira
É de sangrar a alma.
[Fogos de artifício].
Diego
Vim aqui pra falar de outro lance.
Maira
Desembucha.
Diego
Vão publicar meu Romance.
Maira
Estava na hora.
Diego
Dediquei a você.
[Olhinhos de cabrita perdendo a cria].
Maira
Me dá um abraço.
[Calor do nordeste no meio deles]
Diego
Sou a prova viva de que a literatura pode transformar o homem num animal, não?
Maira
Você é lindo.
[Zoadas de cachoeira. Lágrimas escorrendo nos ombros dele].
Diego
Não é preciso chorar, amor.
Maira
Trouxe presente.
[Voz embargada de barco banzeirando no rio amazonas]
Diego
É?
Maira
Abre.
[Diego desfaz o laço do pacote florido tremendo de nervoso até vislumbrar um troço cinza sangrando]
Diego
Cê roubou a lua pra mim?
Maira
É sua vestimenta de urso.
Diego
Agora posso morrer em paz.
[Ele mergulha no rio virando santo. ela dá as costas sorrindo até desaparecer com estrelas cadentes].
Você não é Rock Balboa
Diego
Não sei o que é amar desde 02 de abril de 2005.
Paulo César
Esboço para um conto?
Diego
Saca aquele silêncio de noites perdidas e tudo que sobra é a paisagem do trem cortando as nuvens?
Paulo César
Nunca entendo tuas metáforas, deve ser por isso que todo mundo te chama de “Sem pé nem cabeça”.
Diego
É. Já falaram que sou um avião sem lugar pra pousar.
Paulo César
Sei.
Diego
Foda. Ela ouvia meus poemas sorrindo com a cabeça encostada nos meus ombros e fechava os olhos de tanta ternura no final da tarde.
Paulo César
Cê precisa conhecer outra garota. Esquecer essa mulher, brother. Calçar tuas botas e escalar montanha no Himalaia.
Diego
Isso é coisa de corno chique.
Paulo César
Sei lá. Tem algo de iluminação nisso.
Diego
Quê?
Paulo César
Em conversar com Deus em braile.
[Silêncio de cavalos ruminando nos fundos da igreja]
Diego
Esse papo de acampar perto do céu é coisa de veado, Paulo.
Paulo César
Então tu és mais bicha do que eu brother. Fica aí plantando de romântico e escrevendo contos barra pesada como se fosse o Stallone…
Diego
O que tem de errado nisso?
Paulo César
Farsa do caralho.
[Paulo tosse até respingar gotículas de sangue na camiseta branca]
Diego
Cê tá bem?
[Paulo revira-se no chão como Apollo arrebentado no 13° assalto]
Paulo César
Faz o seguinte: continua escrevendo e pára de se lamentar por mulher, Valeu?
Diego
Certo.
[Diego dá a mão e Paulo se levanta]
Paulo César
Desculpa te chamar de imitador do Balboa. É que os personagens dos teus contos sempre ganham no boxe e voltam pro cais sozinhos e chorando de desgosto.
Diego
Esquece isso.
[Buzinas no asfalto e Pássaros no céu]
Paulo César
Se um dia tu virar cineasta escreve um papel pra mim?
Diego
Claro, Paulo. Você é meu melhor amigo.
Paulo César
Pode ser algo parecido com o cunhado do Rock.
[Tosse de chaminé]
Diego
Por que diabos cê quer ser o “Polly”?
[Risos]
Paulo César
É que ele sempre tá bêbado ou segurando uma garrafa pelo meio.
[Som de trem descarrilando. Câmera filma os pés até subir os créditos na neve].
Rimbaud Tardio
Diego
Meu coração de quem senta na sarjeta sem ter pra onde ir.
Natália
Cê tá legal?
Diego
Minha loucura de escrever continhos pra depois sorrir.
Natália
Triste.
[Som de passarinhos. Ele senta-se catatonicamente atirando pedras no vazio. Ela olha pro sol, acende um cigarro e depois fica ouvindo “glups” no asfalto].
Diego
Cê não sabe o peso de escrever desde os dezessete e não ser agraciado.
Natália
Quem acudirá um trem descarrilando? Sempre foi uma espécie de casa pegando fogo ou prédio desabando.
Diego
Só pra 7 ou 8 ver.
Natália
Sempre achei o sucesso e a fama coisa de veado. Tem coisa mais escrota que chorar no “Arquivo confidencial” do Faustão?
[Ela abre um sorriso congelando no tempo]
Diego
Queria poder ver as nuvens e depois te fuder com uma garrafa de Jack Daniels na cabeceira do Motel.
Natália
Rimbaud Tardio.
Diego
Foda. Pagou o preço. A poesia ainda lhe amputou uma perna.
Natália
Já leu “Uma temporada no inferno”?
Diego
Li e depois sonhei com ele no deserto.
[Ele entorta a boca como se tivesse usado drogas].
Natália
Tá me tirando?
Diego
Não. Foi só uma recaída.
Natália
Do jeito que cê Tá indo, vai ser só mais um Noia da Cracolândia.
Diego
Pô.
[Palavras lilases escalando paredes descascadas na esquina onde já fumaram Crack. Ela dá dois passinhos de resguardo tentando abraça-lo, mas desiste. Pedaços de sol vão se abrindo nas costas dele].
Pegadas na Neve
[Manaus abaixo de zero. Drogados quentam as mãos envolta do camburão vomitando fogo. Natalia caminha com sacolas de supermercado e puxa um sanduíche de atum dando para Diego que não hesita em devorá-lo como morta-fome].
Natalia
Cada vez que venho aqui tenho a impressão que você fica mais preto.
Diego
Deve ser sujeira.
[Ela ri timidamente acendendo um Marbolro].
Natalia
E os papéis chamuscados de loucura? Achou?
Diego
Nem tive tempo de procurar.
Natalia
Às vezes acho que você não quer sair desse buraco.
Diego
Acostumo-me em qualquer lugar.
Natalia
Barata. Tu és uma barata burra e cascuda.
Diego
Não. Sou a neve, o urso e as pegadas no meio da solidão.
Natalia
Tem um monte de gente torcendo pela tua felicidade, Diego.
Diego
A felicidade é apenas uma festa de aniversário recheada de idiotas com o nome do infeliz em cima do bolo.
Natalia
Assim fica difícil te ajudar.
Diego
Nunca precisei de ajuda.
Natalia
Então que faço nesse lixão todo final de semana?
Diego
Atrás de sarna pra se coçar. Desconfio que não seja Editora de droga alguma e que seu único vício seja me tirar do sério.
[Ele tosse como chaminé no carnaval. Ela tropeça e aconchega-se nos braços do infeliz].
Natalia
Pára com isso. Não suporto mais viver com essa loucura dentro de mim. Esquece essa literatura perdida e vêm comigo. Não precisa escrever nada pra me amar.
[Olhos azuis dela enchem de água como represas na enchente]
Diego
Esse lance de escrever continhos enlouquece. Já chega de fantasiar desfechos prateados. O que sempre quis foi uma mulher pra chamar de minha e me beije com bafo às sete.
[Mãos dadas embaixo do guarda-chuva. Câmera dá ré brincando de transformá-los em casal urso].
Natália
Felicidade talvez seja caminhar sem rumo, né?
[Cavalos soltos].
