Ursocongelado

Isso não é literatura. É só a minha dívida no bradesco

Conto meu na Revista Clitoris

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Diego Moraes, Adriana Brunstein, Bruno Bandido, Camila F, Marcelo Mirisola, Mário Bortolotto e Paulão da Velhas virgens  http://revistaclitoris.wordpress.com/revista-clitoris-2

Escrito por ursocongelado

21/02/2012 em 15:17

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Poema número 7

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Você não sabe rosnar

É mais fácil sentar e escrever um poema triste ou se contentar com as pedrinhas fazendo glups no fundo do Rio Negro.

Escrito por ursocongelado

17/02/2012 em 19:22

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Cool

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Diego

O cara era só mais um bastardo na vida. Cursava letras na USP e puxava saco de James Joyce, David Foster Wallace e os cool de Porto Alegre.

Túlio

E aí?

Diego

Deu pena de olhar para os olhinhos azuis de corno.

Túlio

Ele namorou Alice?

Diego

Tempos atrás. O pai dele detonou meu livro de contos em 97 na folha de São Paulo. O velho preconceito contra marginais e surrealistas do norte.

Túlio

Tinha muita gente na sala de aula?

Diego

O professor Cláudio Willer discutia “Paranóia” do Roberto Piva com os alunos do Itaim Bibi.

Túlio

Foda.

[Sol fudido estremecendo a goela do grilo. Onde andará o negro que escreveu poemas lindos e depois morreu sozinho no mar? Literatura de verdade é fechar os olhos e imaginar satanás corrompendo os anjos do paraíso]

Diego

Não queria ter matado.

Túlio

Mas ele morreu?

Diego

Soquei o estômago até vomitar pássaros e troços azulados. A galera ficou horrorizada.

Túlio

Sério mesmo?

Diego

A garotada ficou horrorizada. Parecia filme do Hitchcock. As meninas gritando e os bichinhos batendo asas contra janela.

Túlio

Deve ter sido o ódio.

Diego

Minha mãe diz que quando fico puto o cachorro fica verde.

Túlio

Anomalia.

Diego

É não. Só estilo mesmo.

Túlio

E o Willer?

Diego

Não se manifestou. Uma semana depois teve avecê e ficou mudo.

Túlio

Baita história. Parece mentira.

Diego

Não gosto de lembrar. Paguei o preço no hospício e engordei na cadeia.

Túlio

Ainda tenho exemplar do teu livro de contos.

Diego

Quase ninguém leu.

[Homem em busca de paz que chora quieto na beira do cais. O segredo do universo brincando com os lobos perto da montanha. Garoto bêbado andando com poemas brilhantes na carteira. Respiração do bebê. Agora toca Bill Callahan até o sol nascer]

Escrito por ursocongelado

05/02/2012 em 14:06

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Poema número 6

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A princesa drogada do bar castelo esperando um Mário que lhe banque pó e uísque

Hipopótamos e violoncelos

Antigo provérbio chinês que mostra a saída do seriado Lost numa esquina do Amazonas.

Escrito por ursocongelado

04/02/2012 em 12:58

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Poema número 5

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Equitação para o sentimento

Nuvens em movimento

Ela deitada no meu peito lendo meus poemas prediletos

Escrito por ursocongelado

03/02/2012 em 8:42

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Poema número 4

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Ligo o Arno

As folhas viram garças desembestadas.

Correm pelo chão gélido.

Transam com as paredes e não dão poesias.

Escrito por ursocongelado

02/02/2012 em 21:59

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Poema número 3

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A respiração do palhaço num teatro em chamas

Passat pregado na encruzilhada da tarde de sábado

O sorriso do garotinho refletindo no espelho do fliperama

Escrito por ursocongelado

29/01/2012 em 15:22

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Poema número 2

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Tipo de cara que escora o fuzil no peito e fecha os olhos

A mina que ri de coisas desconexas em Águas de Lindóia.

O caminhoneiro que toma rebite e morre de overdose ouvindo Fernando Mendes.

Escrito por ursocongelado

27/01/2012 em 16:11

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Poema número 1

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Silêncio dos figos embaixo da chuva

Pensamento verde dentro do poema

A rua como deserto contando estrelas

Sorriso preso no hospício da criancinha sem botas

Ela disse que o filho foi assassinado em juiz de fora. Que as flores estavam mortas no aquário e um mendigo estava cantando ópera na piscina.

Escrito por ursocongelado

27/01/2012 em 15:26

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Samurais

com 3 comentários

Gregório

Você não tem noção de como ela é linda.

Túlio

Quem?

Gregório

A vida.

Túlio

Jura que come alguém com essas tiras?

Gregório

Tentei ser rápido no gatilho.

Túlio

Foi patético, brother.

[Um pássaro faz menção de pousar na cabeça de Gregório, mas vai baleando e cai morto no descampado]

Gregório

Achou algo?

Túlio

Até agora nada.

[A brisa peituda de janeiro gelando arvores sem frutos. Os dois sentadinhos no banquinho da Praça Walter Campos de Carvalho separando aspas do jornal]

Gregório

Triste mesmo são aqueles patos que fingem disfarçar a solidão nadando com os jacarés.

Túlio

Tudo se torna domesticável na depressão. O sujeito até acostuma-se a viver num chiqueiro ou lixão.

[Deus vai se afastando por trás do sol. Agora as imagens se dão por trás dos ombros pegando os bichinhos flutuando na lagoa suja]

Gregório

A gente também é assim.

Túlio

Como?

Gregório

Animais domesticados pela indiferença.

Túlio

Estou longe disso.

Gregório

Por quê?

Túlio

Sou humanista.

[O pipoqueiro abre um sorriso tão amarelo de ironia que o último peixinho da poça morre engasgado e o céu vai ficando preto da cor do abismo]

Gregório

Você é só mais um incrédulo caridoso. Uma espécie de padre que estupra criancinhas e depois vai rezar missas na áfrica para aliviar as penas da consciência. Faz pelo menos cinco anos que te trago aqui para contemplar a vida e você debocha do brilho que antecede a poesia.

Túlio

Só pode estar brincando. Só venho nesta praça porque acho que é uma terapia para tua crise literária.

Gregório

A vida existe e não é uma metáfora, amigo.

Túlio

Sério?

Gregório

Ela é um elefante guardando memórias dolorosas.

Túlio

Estou começando a ficar preocupado.

[Olhos enchem de rios vermelhos. Gregório puxa uma cartinha do bolso com desenho de uma mulher gorda abraçando duas loirinhas lindas]

Gregório

Há cinco anos disse para a vida que iria para cidade grande trabalhar num carrinho de cachorro quente e escrever contos.

Túlio

E aí?

Gregório

As coisas não deram certo.

Túlio

O que ela diz na carta?

Gregório

Que se encontraria comigo nesta praça numa tarde de sábado.

Túlio

Sinto muito.

[Lágrimas escorregam frouxamente do rosto dele até fechar os olhos de mágoas. Túlio o abraça e também repousa em silêncio como samurai em sentimento de pêsames. Um senhor assobiando vêm dirigindo um trator e vai acabando com as cores, sonhos e os pombos do chafariz].

Escrito por ursocongelado

23/01/2012 em 20:33

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Cinza

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“Emoção sem opção

Viajar no avião 

Da manteiga aviação”

- Angélica Freitas

Ana

O urso é o único animal que escreve contos e toma conhaque na neve.

Diego

Foi lindo. Abandonei tudo que um dia chamei de literatura e vou trabalhar no garimpo.

Ana

Não sabe fazer outra coisa. Só tem contenda, ganância e ouro lá.

Diego

Preciso fazer algo que brilhe, porque as palavras só escurecem a minha vida.

[Pássaros brincando com pipas no azulão. Crianças correndo com cães nos parques alegres e anjos guerreando para que  o homem não desista da poesia]

Ana

Fica comigo. As coisas vão melhorar.

Diego

Faz dez anos que falas isso.

Ana

O quê?

Diego

Que as coisas vão melhorar e só pioram.

Ana

Estou traduzindo coisas árabes.

Diego

Até um infeliz no oriente médio é mais feliz que a gente.

Ana

A felicidade é tê-lo ao meu lado.

Diego

Tu és louca, Ana. Não tenho nada para te oferecer. Faz uma semana que a velha portuguesa bate na nossa porta cobrando o aluguel. Achas isso bonito?

Ana

Não ligo.

[Sorriso estendido na paisagem do tédio. Bêbado dando tchau para um barco a deriva que irá naufragar no encontro do Rio Negro e Solimões]

Diego

É vida, não é? Esta grande fábrica de dor e desapontamentos.

Ana

Bobagem.

Diego

Sempre leva as coisas na brincadeira quando falo sério.

Ana

Só você importa, amor.

Diego

Foda-se.

Ana

Não fica puto.

[Arco-íris lá fora. Um cara subindo o monte Everest e outro falando da ternura engraçada dos poemas da Angélica Freitas para uma garota  que não dá a mínima]

Diego

Paga a conta?

Ana

Pago.

[Ele levanta-se como Golias derrotado]

Diego

Vou pegar um ar nas ruas.

Ana

Ficou magoado comigo?

Diego

Não. Tudo permanece intacto, mas minha alma deseja beber conhaque em outros bares.

[Agora tudo é cinza e silêncio no mundão]

Escrito por ursocongelado

09/01/2012 em 22:00

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Dostoiévski

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Eu vi Dostoiévski embaixo do viaduto da Avenida Djalma batista.  O mendigo mais misantropo do mundo.  Tão avesso a humanidade que quando alguém se aproxima ele começa a falar russo.

Escrito por ursocongelado

29/12/2011 em 16:53

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Natal

com 4 comentários

Uma gaúcha peituda para acender cigarros e corrigir meus erros ortográficos: é o que desejo neste natal.

 

Escrito por ursocongelado

17/12/2011 em 16:35

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O rei do recife

com 2 comentários

Ao amigo Tadeu S.

Camargo

Você não sabe a respeito de garotas, pastor. A tua loucura é o choro pelos versículos da bíblia. O amor é uma retroescavadeira acabando com o coração.

Pastor Alemão

Já fui dado a cadelas, irmão.

[Latidos secos estalando o vento]

Camargo

Está me seguindo faz tempo?

Pastor Alemão

Desde o dia que sentaste num banquinho da praça do centro de recife e abriste o livro de eclesiastes.

Camargo

Em que parte?

Pastor Alemão

Capítulo nove, verso quatro.

Camargo

“Porque, enquanto um homem permanece entre os vivos, há esperança; mais vale um cão vivo que um leão morto”.

Pastor Alemão

Sacou?

[Camargo descalçou os sapatos, desabotoou a camisa e foi caminhando para a beira da praia onde as ondas quebram num azul delirante]

Camargo

Ela me deixou para um vazio medonho. Agora respiro me afogando tipo um submarino da segunda guerra.

Pastor Alemão

Foda.

[O cão arranhava as patas na areia desenhando sorrisos e corações. A sensação de naufrágio dentro do corpo. Camargo fazendo força para não chorar]

Camargo

E agora? Os meus poemas dedicados serviram apenas para o amarelamento?

Pastor Alemão

Deve ter ficado roxo.

Camargo

O quê?

Pastor alemão

Os poemas.

Camargo

Não tem mais jeito. Dane-se.

[Camargo entra no monstro azulão e se deixa afogar como num dia triste. O cão desesperado corre destrambelhadamente até criar asas e virar anjo]

Escrito por ursocongelado

11/12/2011 em 18:02

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Eu amo Pelotas

com 4 comentários

Diego

Só consigo pensar em dar o fora daqui e ir para Pelotas.

Martinelli

Apenas um lugar frio.

Diego

Acho que estou enlouquecendo.

Martinelli

É?

Diego

Dia desses fui ao parque aquático e entrei numas paranóias que a foca pularia do tanque e roubaria minha cerveja.

Martinelli

Cuida-te.

Diego

Ando apaixonado por uma poetisa.

Martinelli

É bonita?

Diego

Linda. É negra, ruiva e lembra o John Lennon.

Martinelli

Tá de sacanagem.

Diego

Nunca falei tão sério.

Martinelli

E por que não escreve carta de amor e pega um avião?

Diego

Medo da decepção.  Aí deixo que fique brincando na roda-gigante da minha imaginação.

Martinelli

Covardia.

Diego

Todo poeta é tímido como uma loirinha virgem.

[Martinelli faz menção de devorar a pêra com sífilis, mas fica só na menção de por a mão na fruteira. O corpo suspenso como um suicida no parapeito do prédio em chamas].

Martinelli

Eu cairia fora. Vai que vira mais um velhote enterrando a ternura das horas em Manaus?

Diego

Os poemas dela são meigos e ternos como nuvens sorrindo.

[O frio tentando entrar na padaria do bairro fragata. A moça triste que não andou de charrete na infância. As canções maravilhosas do Vitor Ramil num bar de mudos e surdos]

Martinelli

Já ouviu o eco que faz na curva do destino?

Diego

Não.

Martinelli

Vais ouvir quando sair daqui.

Diego

Vou arrumar minha mochila.

Martinelli

Fica na paz, brother.

[Sombras, passarinhos e i love satolep]

Escrito por ursocongelado

04/12/2011 em 12:43

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Reconciliação

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Nara

Você tem um jeito especial de me fazer sofrer. Primeiro magoa e depois escreve um troço lindo pedindo perdão.

Urso

Não sei para onde ir.

Nara

Navio sem bússola. Soldado sem rifle e porca sem asas.

Urso

Sou assim?

Nara

Tu és um pródigo de meia-maratona. Corre pra caralho e aí fica triste e volta querendo meus abraços.

[Urso abre sorriso espanando borboletas na Amazônia. Ela sopra os machucados da testa dele e beija sujando de sangue o vestidinho branco de seda]

Diego

Saca quando alguém acorda de ressaca e a única fonte de energia é os escritos espalhados na mesa e a solução parece morrer escrevendo ou pular de cabeça do sétimo andar?

Nara

Lembrou de mim?

Urso

Como nunca tinha lembrado antes.

Nara

Bom.

Urso

Eu podia ser advogado, jornalista ou jogador de poker, mas preferi escrever contos e encher o saco da caixa de correios da editora Record.

Nara

E aí?

Urso

O cara lá nem leu.

Nara

Por quê?

Urso

Disse que estava cheio de erros ortográficos.

[O chiado mais lindo do mundo derrubando os frutos do quintal amarelo. A sensação que Deus existe e perdoa os santos e desertores]

Nara

Tira essa roupa, amor. Vamos tomar um banho.

Urso

Morrendo de fome.

Nara

Guardei Tambaqui assado no forno.

Urso

Eu te amo.

[Corpos nus em tom prata caminham abraçados em direção ao chuveiro. Mar, sangue e choro do rancor escorrendo pelo ralo. A pomba da reconciliação gralhando no telhado de zinco].

Escrito por ursocongelado

26/11/2011 em 20:09

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Paquetá

com 6 comentários

Conto meu na revista Paquetá. Quem tiver a fim de ler é só deixar e-mail que mando PDF via e-mail.

Escrito por ursocongelado

22/11/2011 em 19:14

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Varginha

com 2 comentários

A Marcos vinicius almeida

Urso

A poesia é o gênero mais avacalhado da literatura. A pessoa junta três palavras contendo sonho, abraço, estrelas e pensa que é poeta.

Platão      

E a mina lá?

Urso

Perdi.

Platão

Foda.

Urso

Fui covarde. Bufão. Um moleque que vê o tesouro naufragando no mar e diz que não sabe nadar.

Platão

Não teve culpa.

[Consolou numa áurea amarelo-maconha]

Urso

Chegou a roubar um violão só pra me presentear.

Platão

Prova de amor.

Urso

O quê?

Platão

Roubar viola pra dar de aniversário.

Urso

Agora ela está isolada sem direito a banho de sol num presídio de segurança máxima.

Platão

Calma, bicho. Quer tomar alguma coisa?

Urso

Conhaque, solidão e dane-se.

[Urso enxugando suor do desespero. Sombra de Platão botando uma dose de Dreher. A casa escura feita alma dos mortos]

Platão

Não tem como tirar a garota desse inferno?

Urso

Saca o meu maior orgulho?

Platão

Não.

Urso

Ter publicado um livro de contos que ninguém leu.  Sei que não vou ganhar na loteria e pagar advogados. Vou invadir na marra e arrancar meu amor de trás das grades.

Platão

É puta artista, velho. Um dos maiores contistas de todos os tempos.

Urso

A literatura não me deu porra nenhuma. Só atrai loucura, inveja e dor de cabeça.

[Chiado dos passos de Platão. Urso olhando para as aranhas correndo no teto]

Platão

Tenho um lance pra você.

Urso

É?

Platão

Era do meu avô Sócrates.

[Desfaz embrulho e vislumbra revolver 38]

Urso

Obrigado. Vou tentar não matar ninguém.

[Levantam-se como Golias sabendo do pior. Platão abre as janelas do abismo iluminando a casa]

Platão

Cuida-te, amigão.

[Desce a ladeira engatilhando. São 9 da manhã, mas vai escurecendo. Urso lembra-se dos olhos castanhos da garota tocando uma canção com final trágico.  Antes de entrar no mercadinho e cometer o assalto é abduzido por ETs].

Escrito por ursocongelado

15/11/2011 em 22:27

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Ela não curte Lie to Me

com 6 comentários

Mauro

Cê curte “Lie to me”?

Bárbara

Não sei do que você está falando.

(Responde sem espanto. Parece que já o esperava há séculos).

Mauro

É uma série de tevê.

Bárbara

Não tenho tempo pressas coisas.

Mauro

Não minta pra mim.

Bárbara

Não enche.

Mauro

Cê ainda me ama?

Bárbara

Você é louco?

Mauro

Seus olhos mudaram de cor quando perguntei…

(Ela passa a mão no pescoço esboçando um sorriso curto meio que escondendo uns sisos arrancados na flor da liberdade)

Bárbara

Deixa-me em paz.

(Uma lágrima oculta escorre do lado esquerdo)

Mauro

Porque fugiste?

Bárbara

Achei que havíamos tapado os buracos que as lembranças fazem no coração.

Mauro

O meu virou um deserto cheio de pedras.

(Formigueiro no metrô)

Bárbara

Você vivia drogado, chegava em casa me batendo. Não dava força no balé e seu nariz só sangrava quando a gente transava.

Mauro

Não foi tão ruim. Eu deitava do seu lado e lia uns contos.

Bárbara

A vida não é apenas um monte de palavras bonitas, Mauro. A gente passava fome. Vivíamos como gatos de rua dormindo no telhado dos outros. Humilhações como sol e chuva.

Mauro

Porque cê disse que ia à farmácia e sumiu por três anos?

Bárbara

Deixa-me trabalhar, cara. Não te devo satisfações.

(Pratos espatifados no ar. Cavalo pulando obstáculos. Gente desmaiando na maratona. Ela põe capacete de leoa e vai distribuindo folhetos de compra-se ouro).

Mauro

Eu te amo.

Bárbara

Eu te odeio.

(Encena uns passos patéticos jurando que é balé).

Mauro

Sempre quis ter um filho contigo.

Bárbara

Só quero paz, Mauro.

(Garotinho corre na direção da leoa e tropeça espalhando frutas apodrecidas. Mãos distribuindo folhetos de Jesus te ama. Pombos debandando na praça da Sé)

Escrito por ursocongelado

09/11/2011 em 12:59

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Espiritismo

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À noite é um cadáver respirando ouro.

Escrito por ursocongelado

05/11/2011 em 21:11

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Serenidade

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Às vezes fico só fragmentação cinza.

Escrito por ursocongelado

05/11/2011 em 17:05

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Estrela

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Só há uma solução: Escrever até seu braço virar fantasma ou pular feito um leão.

Escrito por ursocongelado

05/11/2011 em 0:54

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São Paulo é um freezer do tamanho de saturno

com 3 comentários

Dá vontade de enfiar o dedo na goela toda vez que vocês citam clarice lispector”. – Camila Fraga

Diego

Na oitava carreira de cocaína o telefone vai tocar e ela vai respirar fundo feito uma baleia em busca do mar.

Paulo César

Foda.

Diego

Olhar de ternura como se fosse chuva banhando a flor.

Paulo César

Nunca mais deu notícias?

Diego

Da ultima vez que disse “amor” o avião atravessou congonhas e explodiu no meio da Avenida Washington Luis.

Paulo César

Coisa de louco.

[Mudez de um chafariz de domingo. Poemas esquecidos no vão do metrô. Anjinhos de prata. A coreografia dos pombos suicidas da praça sé]

Diego

Tentei de tudo. Dediquei até um livro de contos e nada.

Paulo César

Quando elas cansam de chorar já era. Acaba mesmo. É algo parecido com os culhões de Deus.

Diego

O quê?

Paulo César

Deus te dá uma, duas, três chances, aí chega o dia que tu faz uma merda fudida que é como chutar as bolas dele.

Diego

Até ele fica puto da vida, não?

Paulo César

Ele arranca tua vida com um sopro, bicho.

Diego

O culhão da mulher é o coração.

Paulo César

Pode Crer.

[Adoniran cantando baixinho num barzinho do Brás. Frio do caralho. Oito mendigos se abraçando embaixo da marquise. São Paulo é um freezer do tamanho de saturno]

Diego

Vou deixar quieto e continuar escrevendo.

Paulo César

É a melhor coisa que tu faz.

Diego

Vou à Rua Augusta comer uma puta simples.

Paulo César

Boa sorte. ultimamente só tem pintado porcaria.

[Paisagem com mongoloides].

Escrito por ursocongelado

30/10/2011 em 21:47

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Saltos ornamentais no paraíso

com 5 comentários

Diego

Deus é um sujeito tímido e toma conhaque na parte mais escura do bar.

Paula

Não te devo nada. O que tínhamos pra conversar virou aquele roxo que a madrugada perdoa.

Diego

A gente podia seguir como amigos e olhar os pássaros enfeitando o horizonte.

Paula

Você magoou a ponto de fazer um estrago na camada de ozônio.

Diego

Foi uma fase difícil.

Paula

Tinha uns rabiscos lá em casa que viraram traças.

Diego

Parei de escrever.

[Sonhos interrompidos pelo destino. Bill Callahan cantando Too Many Birds no Jukebox. O sétimo índio bonachão pensando nas filhas mortas na fronteira da Bolívia]

Paula

Louco.

Diego

Lembra do dia em que pulei do barco em movimento e continuei a nadar feito boto no meio do Rio Negro?

[Ela sorri como anjo]

Paula

Você apanhou feio do comandante e depois caímos na risada. Sua cara ensangüentada e a gente se beijando.

Diego

Foi um dia lindo mesmo.

[Silêncio mágico do perdão. Principados e potestades em festa. Jesus cristo jogando cartas com Abraão no deserto].

Paula

Promete que não vai me fazer sofrer?

Diego

Assim como a chuva vem pra banhar o sol.

Paula

Eu te amo.

[Negros tocando trompete dentro do aquário da loja da esquina].

Diego

Quero confessar algo.

Paula

É?

Diego

Não parei de escrever. Escrevi um troço pro nosso amor.

[Diego abre a carteira e puxa um conto enrolado no guardanapo de papel. Ela o abraça como se o mundo não fosse triste].

Escrito por ursocongelado

23/10/2011 em 11:09

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Psicose

com 2 comentários

A gente escreve, escreve pra caralho e chega num ponto que não temos mais pra onde correr.  A sensação é de que já atingimos o limite de ternura e tudo que tentarmos só vai encher o saco da inutilidade.

Escrito por ursocongelado

20/10/2011 em 16:02

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Profecia

com 2 comentários

Se você amanhecer bebendo Red Label e mergulhar bem fundo no Rio Amazonas, é possível ver a Marilyn Monroe só de calcinha.

Escrito por ursocongelado

17/10/2011 em 18:58

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Embaçado

com um comentário

Diego

Liguei pra gente ouvir Sérgio Sampaio na praia da macumba, mas sua secretária eletrônica disse uns lances em francês e resolvi não deixar recado.

[Cachorrinho latindo por causa da bike vermelha do entregador de jornais. A senhora sentada do outro lado da praça olhando o vazio como se não fosse morrer semana que vem. Pássaros azulados mergulhando em pacientes com câncer]

Luana

Ela não sabe mexer.

Diego

O quê?

Luana

Minha irmã caçula.

[Lua dispersa dos caracóis de estrelas. Carros buzinando como se o dissessem pra levantar e começar andar longe do circo de remorsos]

Diego

Quem?

Luana

Ela não sabe mexer na secretária eletrônica. O manual está em inglês.

Diego

Dane-se.

[Ela poderia rir de ironia ou só ficar no silêncio de hipopótamos contemplando a raiva, mas resolveu cruzar as pernas e amarrar os cadarços]

Luana

Você deixou de ser o objeto mais importante da casa.

[Ela bota a mão no coração soluçando, deixando lembranças transviadas que o amor desuniu no auge da tempestade]

Diego

Não estou entendo nada.

Luana

E quem deveria entender?

Diego

Nunca estive na tua casa.

Luana

Fez tanta maldade que a poesia fugiu feito um animal escorraçado pelo vento.

Diego

Vim aqui pra fazer as pazes.

Luana

Acabou.

Diego

Nunca te traí.

Luana

O vi abraçado com a garota do Milk-Shake no Shopping Center.

[Não havia mais o que fazer ali. Era só entrar no carro e chorar até embaçar os vidros naquela manhã de 13 de novembro]

Escrito por ursocongelado

13/10/2011 em 22:18

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Verdade

com um comentário

Me viciei em escrever mentiras bonitas pra você.

Escrito por ursocongelado

11/10/2011 em 21:26

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Califórnia

com 7 comentários

Harvey Keitel

Só quero ir pra casa ouvir B.B. King olhando os pássaros embocando na varanda.

Steve Buscemi

É uma dádiva

Harvey Keitel

A melhor sensação do mundo é escrever um romance cheio de bêbados sonhadores e ficar com aquele gostinho de não dever nada a ninguém.

[A grandiosidade do deserto de Mojave. Harvey Despe a roupa de palhaço, olha fundo nos olhos de Steve e começa a chorar como cordeirinho perdido da manada]

Steve Buscemi

Por que tá chorando, cara?

Harvey Keitel

Nunca escrevi merda alguma. Só acho bonito falar de literatura num lugar desses.

Steve Buscemi

Dá certa, paz. É lírico mesmo. Também gosto de interpretar coisas sem sentido. Anteontem vi uma garota linda tocando trompete e sentei ao lado e comecei a falar como um piloto de avião prestes a explodir.

Harvey Keitel

E aí?

Steve Buscemi

Ela cansou de tocar. Pôs um Marbolro na minha boca, sorriu e saiu caminhando com o sol iluminando os ombros.

Harvey Keitel

Boa garota.

Steve Buscemi

O tipo de gente que perde a conta da palavra solidão num caderninho rosado ou dorme com vontade de nunca mais acordar.

Harvey Keitel

Temos algo em comum.

Steve Buscemi

É?

[Indaga idiotamente saltitando os olhos azuis]

Harvey Keitel

Somos viciados em garotas tristes.

[A boçalidade da Mamba-negra deslizando na areia].

Steve Buscemi

Que horas esse cara vai chegar?

Harvey Keitel

Ele não gira bem.

Steve Buscemi

Por que diabos o cara quer discutir um filme no meio do deserto?

Harvey Keitel

Tô ficando velho pra essas coisas.

[Azul freia bruscamente. Abel Ferrara dá pegas no crack e desce loucamente do Mustang]

Abel ferrara

O que tá rolando?

Steve Buscemi

Nada. Só estávamos expondo nossos sentimentos.

[O cineasta pega algo no porta-luvas e começa a gargalhar como um asno]

Abel Ferrara

Não trabalho com sentimentaloides!

[Sol de satanás. Sangue jorrando em ternos brancos. vendaval com ecos sinistros].

Escrito por ursocongelado

09/10/2011 em 22:40

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Dromedários

com 4 comentários

Diego

Foi-se o tempo que Alice fazia falta. Agora tenho piano, bicicleta e uma velha máquina de escrever.

Murilo

Mas vivia dizendo que tinha dívida de gratidão eterna.

Diego

Ela não é uma garota qualquer. Leu poemas de Um bom lugar para morrer quando estive internado.

Murilo

Uma maníaca depressiva, né?

Diego

Não fala mal dela.

Murilo

A enfermeira podia ter virado as páginas.

Diego

Foi diferente.

[Voz ruiva gargalhando numa espécie de túnel negro. Os dois  como arvores petrificadas. Dromedários azulados no meio das nuvens].

Murilo

Agora é sua vez de passar a jaqueta.

Diego

Eu disse que eram quinze minutos pra cada.

Murilo

Já se passaram vinte.

Diego

Ainda estamos em sete.

Murilo

Tem escrito alguma coisa?

[Lábios arroxeando feitas borboletas na taberna de Dante Alighieri]

Diego

Ontem escrevi um conto tão barra pesada que meu cachorro correu pra ver.

Murilo

Foda.

Diego

A vida é ingrata, brother. Inventei gênero literário e agora me falta moedas pra comprar conhaque.

Murilo

Não tô sentindo as pernas diegão.

Diego

Tá bom, agora é sua vez de esquentar o peito.

[Diego veste o amigo como Jesus abençoando leproso. Nada se vê além do branco infinito-patético e a praça onde estão sentados feitos personagens desenhados por crianças autistas]

Murilo

Alice nunca foi louca. Sempre amou.

Diego

Porque tá falando isso agora?

Murilo

Sempre tive inveja de você.

[Socos no estômago até escorrer sangue do nariz. Diego também cai congelando de cansaço. Alice surge rebolando de vestidinho dourado. Cores brotam em Satolep].

Escrito por ursocongelado

29/09/2011 em 16:25

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Fogos de artifício

com 6 comentários

Diego

Preciso dar o fora daqui.

Murilo

Por quê?

Diego                     

A cidade tá empestada de veadinhos recitando Caio Fernando Abreu.

(Silêncio interrompido por trovões. Bala perdida na cabeça do açougueiro que vendia cocaína).

Murilo

A filha desse cara é linda.

Diego

Do açougueiro?

Murilo

A garota desapareceu do bairro.

(Diego acende um derby. Escora-se no muro pichado onde se lê:”O velho Charles Bukowiski nunca esteve aqui”).

Diego

Se contar você não acredita.

Murilo

O quê?

Diego

Ainda tocava “Me chama” no rádio quando ela capotou morta em meus braços.

Murilo

Foda.

Diego

Os olhos castanhos mais lindos que já vi na vida.

Murilo

Nunca te vi com ela.

Diego

Não dava bandeira. Eu comprava pó com o pai, brother. Ficaria feio na foto comprar droga do cara e ainda comer a filha, né?

Murilo  

Não imaginava um lance desses.

Diego

A gente costumava fazer picknick de frente pro Rio Negro. Ela não falava nada. Só esboçava uns sorrisos mágicos como se não houvesse estrelas e depois me abraçava no meio dos chiados do rádio.

(Sensação de remorso dentro da cachoeira da alma).

Murilo

Coisa linda de se ouvir num sábado.

Diego

Não sei o que vai ser de mim. Parei até de comer carne pra não lembrar.

Murilo

Ela morreu do nada mesmo?

Diego

Pensava que ela era muda aí pediu pra mim declamar alguma coisa. Fechei os olhos e comecei a falar da Beleza de um homem que só quer escrever seus continhos pra depois sorrir com uma mulher de Deus.

Murilo

Doidera.

Diego

Aí meu peito foi esquentando pra caralho a ponto de queimar. Encerrei o poema na palavra “Amor” e estouraram fogos de artifício no meio da gente. Uma loucura. Parecia ano novo.

(Azulão. Chuva varrendo os miolos do gordo).

Murilo

Hoje é um dos dias mais estranhos da minha vida.

Diego

Faz dois dias que não pego no sono.

Murilo

Então vai pra casa descansar.

Diego

Beleza. Vou fazer isso mesmo.

Murilo

Apaga e quando acordares vê se escreve o melhor conto do ano.

(Setembro com gosto de hospício. Murilo dobra a esquina e Diego vai pro bar cheio de santos e pássaros leprosos. Lembra da garota de olhos castanhos entre goles de conhaque).

Escrito por ursocongelado

22/09/2011 em 22:52

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O escritor mais barra pesada do Amazonas

com 5 comentários

Paulo César

As mulheres acham que podem mijar no coração da gente e sair sorrindo como se fossem passarinhos.

Diego

A grande mágoa da minha juventude foi não ter ficado com a garota da torre do aeroporto da Bahia.

(Chiado das ondas).

Paulo César

O que têm escrito?

Diego

Quase nada. O que tinha pra escrever ficou guardado na gaveta das alegrias.

(Bota a mão no peito pensando ser uma caixinha de música onde se guarda os segredos mais bonitos).

Paulo César

Literatura…

Diego

Não tem volta, cara. Você pode ser metralhado na saída de um bar ou explodir num avião, mas sua literatura vai estar lá dentro da alma misturada com o azul do mar.

(Temporal. Asa delta caindo nas pedras).

Paulo César

Cê é o escritor mais barra pesada do amazonas.

Diego

Sou nada. Às vezes bate solidão e entro numas de sentar na cadeira de balanço e chorar fumando derby olhando pras nuvens.

Paulo César

Conheceste minha ex-mulher?

Diego

Não.

(Paulo cutuca os bolsos e puxa uma fotografia antiga de um casal se amando na argentina).

Paulo César

Tá vendo esse cara dançando tango?

Diego

És tu?

Paulo César

Tinha bigode nessa época.

Diego

O que aconteceu?

Paulo César

Caiu da roda gigante. Ainda pude vê-la dando tchauzinho enquanto estava escorado na barraca de maças de amor.

Diego

Foda.

Paulo César

É por isso que gosto de vir aqui na praia falar de mulheres e literatura.

Diego

Bebe mais um gole?

(Riram até o tsuname lamber os sonhos e arrebentar tudo).

Escrito por ursocongelado

12/09/2011 em 18:54

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Soluço de pedra

com 8 comentários

Diego

Ela acabou tudo e me sinto um besouro vermelho despencando do vigésimo sétimo andar.

Lucas

Agora vai escrever poesia até soluço virar pedra?

Diego

Quem dera.

(A garrafa de Dreher brilhando como se fosse um tesouro perdido).

Lucas

Vai embora?

Diego

Pelotas é apenas uma cidade fria, Brother. Agora só quero voltar pra casa e escutar Amado Batista.

Lucas

Foda.

Diego

Cê é daqui?

Lucas

Não.

Diego

É da onde?

Lucas

De lugar Nenhum.

(Silêncio de poço).

Diego

Gostava de ficar Bêbado olhando os olhos castanhos da Maira até o eco naufragar na palavra “Amor”.

Lucas

É engraçado como as coisas lindas vão ficando estranhas até virar tragédia roxa, não?

Diego

Meu nariz tá sangrando?

Lucas

Um pouco.

Diego

Deve ser do abandono. Faz quase um ano que não cheiro pó.

Lucas

Ainda bem.

Diego

Pra onde vai levar o parquinho de diversões?

Lucas

Cansei da tristeza desses animais mudos.

(Cavalos e pôneis de gesso virando adubo no asfalto)

Diego

Parece boa escolha.

Lucas

Põe a placa de “Seja bem vindo a Pelotas” na carroceria e vamos dar o fora.

(O tempo fecha. tudo vira Dreher e gargalhada. Lucas liga a caminhonete tossindo fumaça preta. Crianças recolhem suas bicicletas de prata como filhotinhos de tartarugas cavando buracos na beira-mar. A cidade agora vai pegando fogo até explodir nas costas deles).

Escrito por ursocongelado

27/08/2011 em 7:10

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Nevada

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Tenho medo dos pássaros que abocanham a minha solidão e depois caem mortos.

Escrito por ursocongelado

15/08/2011 em 15:21

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Mulheres

com 7 comentários

À kasmin Carnevali

Maira

Meu marido precisa ficar em paz, saca? Quando não escreve, embaça aeroportos a ponto de ficar impossível pousar em Congonhas ou Guarulhos.

Gisele

Foda. Viver escrevendo poemas e não ganhar um tostão furado, não é coisa de Deus, Não. Tá mais pra alma a serviço do capeta.

Maira

Têm gente que nasce com a alma assim…

Gisele

Como?

Maira

Infeliz da vida.

Gisele

O meu toca  numa rádio/AM.

Maira

Legal.

Gisele

Nada. Às vezes atravesso a cidade de bicicleta. Ponho-o na garupa e venho ziquezagueando. A garganta roxa e o nariz dele sangrando feito riacho sem dono.

Maira

Deve ser uma barra agüentar essas coisas.

Gisele

Não tem nada a ver com drogas. O vício dele é ficar sem fôlego. Diz que vê peixinhos saindo e entrando do saxofone.

Maira

Que horas são?

Gisele

Seis em ponto.

[Céu de Manaus. O arrebatamento da cúpula da igreja de São Sebastião. Barquinho sem ninguém dentro atravessando o Rio Negro].

Maira

Eles estão enlouquecendo.

Gisele

Sempre foram loucos.

Maira

Há certas coisas que não retornam.

Gisele

O quê, por exemplo?

Maira

O sorriso dele declamando poemas.

[Silêncio de bonde parado].

Gisele

Tem alguma peça no teatro?

Maira

Que se dane. À noite é nossa.

[Garotas se embebedando. Fotografias da artista plástica mineira reluzentes como santidades no Bar do Armando. Kasmin abraça seu metafísico cabeludo pra subir a ladeira cantando.  Agora Pássaros num vendaval dentro das gravuras de Goya].

Escrito por ursocongelado

11/08/2011 em 22:01

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É proibido tocar trompete

com 2 comentários

Diego

Ela disse que o irmão foi metralhado.

João Batista

E aí?

Diego

Ficou olhando com cara de que é proibido tocar trompete no chororó.

João Batista

Viu a figura no caixão?

Diego

Mó onda. A amante de um lado e a esposa grávida do outro tapando patacas de sangue escapando pelos riachinhos do corpo.

João Batista

Dever traficante é foda.

Diego

O peito dele parecia uns biscoitinhos vermelhos de Pac-Man. Na entrada só bacacinho de foca e nas costas rombo de elefante.

João Batista

Metralhadora…

Diego

Vou sair fora.

João Batista

Pra onde, velho?

Diego

Pegar a estrada aí.

João Batista

Fica na paz.

Diego

Tem um presente no porta luvas do carro.

João Batista

É?

Diego

Semana que vem não é teu aniversário?

João Batista

Obrigadão. Essa foi a melhor coisa que já ganhei na vida.

[Mãos sujas no On the Road e talagadas no Ballantines].

Diego

Tô indo.

João Batista

Vai devagar…

[Rajadas de Ar- 15 cruzando o céu até acertar sem querer a cabeça de João Batista. Diego acelera assobiando Noel Rosa de mansinho até escurecer completamente].

Escrito por ursocongelado

02/08/2011 em 15:51

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Santidade

com 7 comentários

Céu cheio de pipas e urubús.

Diego

Hoje faço seis meses sem cheirar pó.

Maira

Legal.

Diego

Tropeço em poemas que jamais serão escritos. Parecem barcos naufragando na beira do cais.

Maira

Os que sobreviveram são belíssimos. Tão acachapantes como bolas de demolição arrebentando o asfalto.

Diego

Cê curte tanto assim?

Maira

É de sangrar a alma.

[Fogos de artifício].

Diego

Vim aqui pra falar de outro lance.

Maira

Desembucha.

Diego

Vão publicar meu Romance.

Maira

Estava na hora.

Diego

Dediquei a você.

[Olhinhos de cabrita perdendo a cria].

Maira

Me dá um abraço.

[Calor do nordeste no meio deles]

Diego

Sou a prova viva de que a literatura pode transformar o homem num animal, não?

Maira

Você é lindo.

[Zoadas de cachoeira. Lágrimas escorrendo nos ombros dele].

Diego

Não é preciso chorar, amor.

Maira

Trouxe presente.

[Voz embargada de barco banzeirando no rio amazonas]

Diego

É?

Maira

Abre.

[Diego desfaz o laço do pacote florido tremendo de nervoso até vislumbrar um troço cinza sangrando]

Diego

Cê roubou a lua pra mim?

Maira

É sua vestimenta de urso.

Diego

Agora posso morrer em paz.

[Ele mergulha no rio virando santo. ela dá as costas sorrindo até desaparecer com estrelas cadentes].

Escrito por ursocongelado

23/07/2011 em 8:58

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Você não é Rock Balboa

com 12 comentários

Diego

Não sei o que é amar desde 02 de abril de 2005.

Paulo César

Esboço para um conto?

Diego

Saca aquele silêncio de noites perdidas e tudo que sobra é a paisagem do trem cortando as nuvens?

Paulo César

Nunca entendo tuas metáforas, deve ser por isso que todo mundo te chama de “Sem pé nem cabeça”.

Diego

É. Já falaram que sou um avião sem lugar pra pousar.

Paulo César

Sei.

Diego

Foda. Ela ouvia meus poemas sorrindo com a cabeça encostada nos meus ombros e fechava os olhos de tanta ternura no final da tarde.

Paulo César

Cê precisa conhecer outra garota. Esquecer essa mulher, brother. Calçar tuas botas e escalar montanha no Himalaia.

Diego

Isso é coisa de corno chique.

Paulo César

Sei lá. Tem algo de iluminação nisso.

Diego

Quê?

Paulo César

Em conversar com Deus em braile.

[Silêncio de cavalos ruminando nos fundos da igreja]

Diego

Esse papo de acampar perto do céu é coisa de veado, Paulo.

Paulo César

Então tu és mais bicha do que eu brother. Fica aí plantando de romântico e escrevendo contos barra pesada como se fosse o Stallone

Diego

O que tem de errado nisso?

Paulo César

Farsa do caralho.

[Paulo tosse até respingar gotículas de sangue na camiseta branca]

Diego

Cê tá bem?

[Paulo revira-se no chão como Apollo arrebentado no 13° assalto]

Paulo César

Faz o seguinte: continua escrevendo e pára de se lamentar por mulher, Valeu?

Diego

Certo.

[Diego dá a mão e Paulo se levanta]

Paulo César

Desculpa te chamar de imitador do Balboa. É que os personagens dos teus contos sempre ganham no boxe e voltam pro cais sozinhos e chorando de desgosto.

Diego

Esquece isso.

[Buzinas no asfalto e Pássaros no céu]

Paulo César

Se um dia tu virar cineasta escreve um papel pra mim?

Diego

Claro, Paulo. Você é meu melhor amigo.

Paulo César

Pode ser algo parecido com o cunhado do Rock.

[Tosse de chaminé]

Diego

Por que diabos cê quer ser o “Polly”?

[Risos]

Paulo César

É que ele sempre tá bêbado ou segurando uma garrafa pelo meio.

[Som de trem descarrilando. Câmera filma os pés até subir os créditos na neve].

Escrito por ursocongelado

04/07/2011 em 2:06

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Rimbaud Tardio

com 6 comentários

Diego

Meu coração de quem senta na sarjeta sem ter pra onde ir.

Natália

Cê tá legal?

Diego

Minha loucura de escrever continhos pra depois sorrir.

Natália

Triste.

[Som de passarinhos. Ele senta-se catatonicamente atirando pedras no vazio. Ela olha pro sol, acende um cigarro e depois fica ouvindo “glups” no asfalto].

Diego

Cê não sabe o peso de escrever desde os dezessete e não ser agraciado.

Natália

Quem acudirá um trem descarrilando? Sempre foi uma espécie de casa pegando fogo ou prédio desabando.

Diego

Só pra 7 ou 8 ver.

Natália

Sempre achei o sucesso e a fama coisa de veado. Tem coisa mais escrota que chorar no “Arquivo confidencial” do Faustão?

[Ela abre um sorriso congelando no tempo]

Diego

Queria poder ver as nuvens e depois te fuder com uma garrafa de Jack Daniels na cabeceira do Motel.

Natália

Rimbaud Tardio.

Diego

Foda. Pagou o preço. A poesia ainda lhe amputou uma perna.

Natália

Já leu “Uma temporada no inferno”?

Diego

Li e depois sonhei com ele no deserto.

[Ele entorta a boca como se tivesse usado drogas].

Natália

Tá me tirando?

Diego

Não. Foi só uma recaída.

Natália

Do jeito que cê Tá indo, vai ser só mais um Noia da Cracolândia.

Diego

Pô.

[Palavras lilases escalando paredes descascadas na esquina onde já fumaram Crack. Ela dá dois passinhos de resguardo tentando abraça-lo, mas desiste. Pedaços de sol vão se abrindo nas costas dele].

Escrito por ursocongelado

21/06/2011 em 13:44

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Pegadas na Neve

com 8 comentários

[Manaus abaixo de zero. Drogados quentam as mãos envolta do camburão vomitando fogo. Natalia caminha com sacolas de supermercado e puxa um sanduíche de atum dando para Diego que não hesita em devorá-lo como morta-fome].

Natalia

Cada vez que venho aqui tenho a impressão que você fica mais preto.

Diego

Deve ser sujeira.

[Ela ri timidamente acendendo um Marbolro].

Natalia

E os papéis chamuscados de loucura? Achou?

Diego

Nem tive tempo de procurar.

Natalia

Às vezes acho que você não quer sair desse buraco.

Diego

Acostumo-me em qualquer lugar.

Natalia

Barata. Tu és uma barata burra e cascuda.

Diego

Não. Sou a neve, o urso e as pegadas no meio da solidão.

Natalia

Tem um monte de gente torcendo pela tua felicidade, Diego.

Diego

A felicidade é apenas uma festa de aniversário recheada de idiotas com o nome do infeliz em cima do bolo.

Natalia

Assim fica difícil te ajudar.

Diego

Nunca precisei de ajuda.

Natalia

Então que faço nesse lixão todo final de semana?

Diego

Atrás de sarna pra se coçar. Desconfio que não seja Editora de droga alguma e que seu único vício seja me tirar do sério.

[Ele tosse como chaminé no carnaval. Ela tropeça e aconchega-se nos braços do infeliz].

Natalia

Pára com isso. Não suporto mais viver com essa loucura dentro de mim. Esquece essa literatura perdida e vêm comigo. Não precisa escrever nada pra me amar.

[Olhos azuis dela enchem de água como represas na enchente]

Diego

Esse lance de escrever continhos enlouquece. Já chega de fantasiar desfechos prateados. O que sempre quis foi uma mulher pra chamar de minha e me beije com bafo às sete.

[Mãos dadas embaixo do guarda-chuva. Câmera dá ré brincando de transformá-los em casal urso].

Natália

Felicidade talvez seja caminhar sem rumo, né?

[Cavalos soltos].

Escrito por ursocongelado

17/06/2011 em 20:01

Publicado em rock